Da torção de tornozelo à coluna
Uma torção de tornozelo parece um problema local. Este caso ilustrativo mostra, em sete passos, uma hipótese de como as compensações podem subir pela fáscia até a pelve e a coluna. Escolha uma fase para vê-la repetida e ler a explicação.

Fase 1 de 7
UMA HISTÓRIA COMUM
Uma torção de tornozelo parece simples.
Dói, incha, melhora. Mas o corpo guarda a história.
Entenda melhor
Uma torção de tornozelo parece simples: dói, incha e melhora. Mas o corpo guarda a história dessa lesão.
Para profissionais
Entorse de tornozelo: lesão comum, muitas vezes dada como resolvida quando a dor e o edema passam. Caso ilustrativo de um modelo biomecânico (hipótese): cada elo tem algum apoio isolado na literatura, mas a sequência completa, da entorse à coluna, não foi demonstrada em estudos.
Fase 2 de 7
A TORÇÃO
Além do ligamento, o nervo é estirado.
Na inversão, o nervo fibular pode ser tracionado. O sistema nervoso central manda a fáscia proteger a região.
Entenda melhor
Na torção, além do ligamento, o nervo da lateral da perna pode ser esticado. O sistema nervoso central recebe esse alarme e manda a fáscia proteger a região.
Para profissionais
Entorse em inversão: além da lesão ligamentar, o nervo fibular pode ser tracionado. Há redução da condução nervosa após a entorse e estiramento do nervo em modelo cadavérico, mais frequentes nas entorses graves (Nitz et al., 1985; Kleinrensink et al., 1994; O'Neill et al., 2007); evidência baixa a moderada. Alterações sensório-motoras centrais são descritas na instabilidade crônica do tornozelo (Hertel & Corbett, 2019; Maricot et al., 2023). A “fáscia em guarda” é a leitura do método SMT para essa resposta protetora.
Fase 3 de 7
MÚSCULOS DESLIGADOS
Os estabilizadores perdem o comando.
Os fibulares perdem força. O glúteo médio do mesmo lado também pode enfraquecer.
Entenda melhor
Os músculos da lateral da perna (fibulares) perdem força. O glúteo médio, um músculo do quadril do mesmo lado, também pode enfraquecer.
Para profissionais
Na instabilidade crônica, há redução da excitabilidade reflexa dos fibulares (inibição muscular artrogênica, efeito pequeno) e déficit de força dos eversores (McVey et al., 2005; Kim et al., 2019; Khalaj et al., 2020); no tibial anterior, esses achados não aparecem. Abdutores do quadril mais fracos são frequentes na instabilidade crônica (DeJong et al., 2020; Zheng et al., 2025), inclusive do lado da entorse (Friel et al., 2006), mas não nos três primeiros meses após uma primeira entorse (Khalaj et al., 2022). O sistema nervoso participa da fraqueza; um mecanismo reflexo no quadril não foi demonstrado.
Fase 4 de 7
A CADEIA LATERAL
A tensão sobe pela fáscia.
Sem apoio, o pé supina e a tíbia roda para fora. A tensão segue a cadeia lateral até o quadril.
Entenda melhor
Sem esse apoio, o pé vira para dentro e a perna gira para fora. Neste modelo, a tensão sobe pela fáscia da lateral da perna até o quadril.
Para profissionais
Retropé e tíbia têm movimento acoplado: a inversão do calcâneo acompanha a rotação externa da tíbia, e a lesão do ligamento talofibular anterior altera a rotação tibiotalar (Fischer et al., 2018; Caputo et al., 2009). A continuidade anatômica entre a fáscia da perna, o trato iliotibial e o quadril existe, mas a transmissão de tensão pela linha lateral não foi medida em pessoas vivas (Wilke et al., 2016; Krause et al., 2016).
Fase 5 de 7
A PELVE
A pelve perde o nível.
Cai para o lado oposto, o ilíaco gira, o sacro torce. A perna lesada fica “mais curta”.
Entenda melhor
Neste modelo, a pelve perde o nível: cai para o lado oposto e gira. A perna do lado da torção passa a funcionar como se fosse mais curta.
Para profissionais
Diferenças de comprimento entre os membros alteram a obliquidade e a torção pélvicas (Betsch et al., 2012; Cooperstein & Lew, 2009), e a medida da “perna curta funcional” tem confiabilidade incerta (Knutson, 2005). Nenhum estudo ligou a entorse de tornozelo à queda pélvica, à rotação do ilíaco ou à torção do sacro: este elo é hipótese do modelo. Na observação clínica do método SMT, a torção do tornozelo direito costuma vir com retroversão da hemipelve direita, mas o padrão varia conforme outras restrições do corpo do paciente.
Fase 6 de 7
A COLUNA EM S
O olhar volta à horizontal.
A coluna compensa em S. Neste modelo, uma torção antiga pode contribuir para dor lombar, cervical ou no ombro.
Entenda melhor
Para manter o olhar na horizontal, a coluna compensa em forma de S. Neste modelo, uma torção antiga pode contribuir para dor lombar, no pescoço ou no ombro.
Para profissionais
A coluna compensa no plano frontal quando a diferença de comprimento passa de cerca de 2 cm (Betsch et al., 2013); a dupla curva em S não foi medida. Lesões de tornozelo e de membro inferior se associam a mais dor lombar em coortes grandes, sem prova de causa (Seay et al., 2018; Foster et al., 2023). Para dor cervical não há estudos; para o ombro, só evidência indireta e muito fraca (Leroux & Lagniaux, 2024).
Fase 7 de 7
DO PÉ À CABEÇA
Por isso, a SMT olha a cadeia inteira.
O objetivo é que a fáscia volte a deslizar e os músculos recuperem o comando.
Entenda melhor
Por isso, a SMT olha a cadeia inteira, do pé à cabeça. O objetivo é que a fáscia volte a deslizar e os músculos recuperem o comando.
Para profissionais
Abordagem da cadeia inteira, não só do tornozelo. Objetivo do tratamento: restaurar o deslizamento fascial e o comando muscular. É o raciocínio clínico do método SMT, não um resultado demonstrado para este caso ilustrativo.